Assim como existem o samba e a música sertaneja ‘de raiz’, também existe um Scrum ‘de raiz’: ideias, princípios e práticas que antecederam e deram forma e jeito ao framework como é conhecido hoje. Ajornada antropológica proposta por este artigo tem como principais objetivos: i) Revisitar os pilares do Scrum; e ii) Descobrir se estamos esquecendo alguma coisa importante em nossos trabalhos com ele. Posso adiantar: estamos!
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O Scrum foi provocado pelo artigo “The New New Product Development Game” publicado na edição de Jan-Fev/1986 da Harvard Business Review (HBR). Escrito por Hirotaka Takeuchi e Ikujiro Nonaka, o artigo descreve o sucesso de empresas como Fuji-Xerox, Honda e Canon no desenvolvimento de novos produtos. Os autores descobriram que as empresas analisadas compartilhavam seis características fundamentais:
- Instabilidade intencional: os times de projetos recebem apenas uma diretriz geral, normalmente uma metáfora indicando o tipo de produto que a organização espera receber. Não existem especificações detalhadas ou plano de projeto. Tensão, pressão, ambiguidade e outros efeitos colaterais da prática são compensadas por tolerância aos erros e pela autonomia concedida ao time.
- Times auto-organizados: a autonomia, citada acima, é uma das três condições para a criação de um time auto-organizado. Auto-transcendência (equipe parece buscar algo além de seu limite normal) e fertilização cruzada (time é multifuncional e todos aprendem com todos) são as outras duas.
- Fases sobrepostas de desenvolvimento: como em um jogo de rúgbi, onde todos correm juntos e passam a bola lateralmente. A metáfora oposta é a corrida de revezamento (desenvolvimento sequencial ou linear), com um participante aguardando a passagem do bastão por outro.
- “Multi-aprendizado”: ocorre o aprendizado multiníveis (indivíduo, time e empresa aprendem) e o aprendizado multifuncional (fruto da fertilização cruzada, citada acima. Um especialista é provocado a aprender coisas de outras áreas).
- Controle sutil: a autonomia de um time não significa falta de controle, apenas um tipo diferente de gerenciamento.
- Transferência do aprendizado: o item 4 acima trata do aprendizado que ocorre entre as partes interessadas de um projeto específico. Aqui se trata do aprendizado interprojetos e também da transferência da e para a organização.
A derivação da lista acima que hoje conhecemos como Scrum, criada por Jeff Sutherland e Ken Schwaber, parece dar ênfase aos itens 2~5 em detrimento do primeiro e último tópicos. Jim Highsmith, mesmo sem dar nome ao boi, sugere algumas correções (ou avanços) no já comentado “Agile Project Management“. Craig Larman e Bas Vodde, em “Scaling Lean & Agile Development” (Addison-Wesley, 2009) tentam o mesmo. Apesar de valiosas, essas colaborações não são suficientes.
Enquanto o Scrum era gestado, Takeuchi e Nonaka prosseguiram com suas pesquisas no campo da Gestão do Conhecimento¹. Do segundo a mesma HBR publicou, na edição Nov-Dez/1991, “The Knowledge-Creating Company“. Em 1995 a dupla voltou com outro artigo seminal, “The Knowledge-Creating Company: How Japanese Companies Create the Dynamics of Innovation“. Por mais que a estagnação da economia japonesa – que já dura duas décadas – tente provar o contrário, esses artigos não poderiam ter sido ignorados como aparentemente foram (pelos “criadores” do Scrum e demais envolvidos com métodos ágeis). Porque eles recolocam e evoluem os temas tratados no trabalho original de 1986.
A crítica sem rodeios nem meias palavras ao jeito ocidental – cartesiano e taylorista – de ver as organizações talvez explique o fato desses artigos terem passado em branco. Mas é exatamente nesta crítica que está seu grande valor. O tal ‘jeito ocidental’ vê as empresas como “mecanismos para processamento de informações”. Nonaka explica:
“De acordo com essa visão, o único conhecimento verdadeiramente útil é o formal e sistemático – dados difíceis² (leia-se quantificáveis), procedimentos codificados, princípios universais. E as métricas-chave para mensurar o valor do novo conhecimento são similarmente difíceis e quantificáveis – crescente eficiência, custos mais baixos, melhor retorno do investimento (ROI).”
Por outro lado, no modo oriental (ou japonês):
- Há reconhecimento e valorização do conhecimento tático;
- A questão não se limita a “gerenciar conhecimentos” mas, principalmente CRIAR conhecimentos;
- Entende que todos os colaboradores, e não apenas os gerentes e diretores, são potenciais criadores de novos conhecimentos; e
- Recursos e atividades são organizados e desenhados de forma a facilitar a criação e transferência de conhecimentos.
Voltemos a um ponto chave que deixei um tanto solto acima: a área de especialização de Takeuchi e Nonaka é a Gestão (ou Criação) de Conhecimentos. Eles entendem que cada projeto é uma oportunidade única para criação de conhecimentos (leia-se Inovação). Por isso depositam boa parte de suas sugestões nas trocas e transformações de conhecimentos. O Scrum, até certo ponto, reflete bem a mesma preocupação. Através de suas reuniões diárias, de revisão (de iterações ou sprints) e retrospectivas. Mas ele peca ao desconsiderar ou dar pouca importância ao que existe fora do time de projeto.
Takeuchi e Nonaka descobriram um tipo de organização que chamaram “hipertexto”. Convivência, confronto e troca entre a estrutura hierárquica (sistemas de negócios) e times de projetos (forças-tarefa) dão forma a uma “hiper-rede”. Uma rede que não se desliga nunca! Por que isso é importante e muito diferente do que vemos no Scrum?
O Scrum instituiu um e apenas um ponto de contato (ou interface) entre negócio (estrutura hierárquica) e time de projeto: o Dono do Produto. 
Por favor, não estou sugerindo que a figura do Dono do Produto é desnecessária e muito menos que ela seja redondamente equivocada. Mas precisamos aceitar que ela é um “ponto único de falha” nesse sistema chamado Scrum. Suas vantagens (particularmente a esperada agilidade na tomada de decisões) não a livra de um risco potencial: a falta de conhecimento.
Existem ainda outros dois fatores que diferenciam essa proposta do Scrum. Os times, apesar de levemente acoplados, mantêm comunicação constante. Sei que isso começou a ser tratado quando pipocaram questionamentos sobre a escalabilidade do Scrum. Aquele papo sobre “Scrum de Scrums” e coisa e tal. O fato é que esse patch não seria necessário se o desenho original³ fosse preservado. O segundo fator é a “Base de Conhecimentos”: aqui temos todo o conhecimento explícito acumulado a cada projeto. A ênfase no conhecimento tácito (e na comunicação direta entre times de projetos e o negócio) não significa o desmerecimento de tudo o que pode e deve ser explicitado (e documentado).
Resumindo, eu vejo dois grandes problemas no Scrum que não existiriam caso seguíssemos acompanhando os trabalhos de Takeuchi e Nonaka:
- O “sistema” original é completo. Ele entende que quem cria conhecimentos são os indivíduos mas quem os amplifica é a organização. Times de projetos são sintetizadores desse conhecimento. O Scrum não pode ignorar ou tratar de forma simplista essas trocas;
- A ênfase em dados “duros” e conhecimento explícito (e mensurável) é a prorrogação de uma mentalidade herdada do século XX, de Taylor, Ford e afins. Um pensamento que desemboca em um absurdo que vi na forma de um cartaz no último Agile Vale realizado em São José dos Campos: “Se o miojo fosse ágil ficaria pronto em um minuto e meio”. O Scrum, lá na sua raiz, nunca prometeu a agilidade pela agilidade. Nunca foi uma questão de fazer de maneira ultra-rápida o mesmo trabalho. A busca cega por eficiência está nos desviando de forma muito preocupante do que é fundamental: fazer a coisa certa!
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Observações:
- Os dois artigos citados, de 1991 e 95, podem ser encontrados em “Gestão do Conhecimento“, de Hirotaka Takeuchi e Ikujiro Nonaka (Bookman, 2008). Aproveito a deixa para recomendar outro livro, mais completo, que apresenta a versão original (em inglês) do segundo artigo: “Knowledge Management: Classic and Contemporary Works“, editado por Daryl Morey, Mark Maybury e Bhavani Thuraisingham (The MIT Press, 2000).
- Ana Thorell, tradutora do primeiro livro acima, optou por “difícil” ao traduzir “hard”. Mantive a tradução original mas, logo abaixo, falei de “dados ‘duros'”. Não sei qual ficou pior.
- Assim como não sei se Takeuchi e Nonaka têm noção do belo monstro que ajudaram a criar, o tal de Scrum. É importante lembrar, antes que levem a culpa por alguma coisa, que eles não tinham a intenção de criar um framework para gerenciamento de projetos ágeis. Miravam a lua. É importante que nossos tiros, a partir do momento que são cópias ou derivações, não se contentem em atingir apenas o topo da montanha.
- “Tree-in-Pot” é o nome do cartoon de hoje. Pra variar, do HikingArtist.
Curiosamente, o artigo me abriu os olhos para “um risco potencial: a falta de conhecimento.”
há um tempo venho pensando o que pode estar dando errado, porque eventualmente falhamos miseravelmente em atender as expectativas dos clientes.
É falta de conhecimento. As vezes de quem faz, as vezes de quem pede. não importa se usamos testes unitários, se temos Donos de Produto, se o cliente está sempre presente… Se não haver alguém que realmente detenha o tal “conhecimento”, a coisa toda vai por água abaixo.
E como saber quem é esse “alguém”, caro Edson?
difícil né? Principalmente porque serão pessoas diferentes em momentos diferentes de um projeto. Um bom mapeamento de partes interessadas ajuda, mas nunca é suficiente. Por isso, na organização “hipertexto” proposta por Takeuchi e Nonaka há uma relação mais direta e aberta entre times de projetos e o negócio. há um envolvimento, de fato, de um número maior de pessoas. O Scrum prevê apenas que essas outras ‘galinhas’ participem – opcionalmente – de revisões de iterações. É pouco. Dependendo da iniciativa, é muito pouco.
E a piada-metáfora dos ‘porcos’ e ‘galinhas’ nunca teve graça nem eficácia alguma. Todos envolvidos e interessados devem ter ‘espírito de porco’ – porque cedo ou tarde o projeto ou o produto gerado por ele exigirá real comprometimento.
Abraços e muito obrigado pela participação.
Paulo Vasconcellos
E é especialmente difícil encontrar esse “alguém” quando nem quem faz e nem quem pede conseguem entender o simples fato de que fazer software é complicado.
XP tenta contornar isso com o princípio do “cliente sempre presente”, mas até hoje não consegui fazer sequer um cliente entender essa necessidade.
E do outro lado, os desenvolvedores muitas vezes assumem o risco de fazer qualquer coisa que o tal “cliente” pede, com pouco ou nenhum senso crítico, levando o software a ter coisas que nem de longe se aplicam às reais necessidades do cliente.
Às vezes quem pede simplesmente ignora quem usa, e quem faz simplesmente ignora quem pede.
Triste conclusão, meu caro Edson.
Me diz, você já teve a sorte de trabalhar com bons analistas de Negócios e/ou donos de produtos? Se sim, eles ajudaram a reduzir os problemas que você listou acima?
Abraços!
Paulo Vasconcellos
Nosso modo de trabalho aqui é mais para o lado do XP, buscando um maior envolvimento do cliente. Dessa forma, muitas vezes nossos donos do produto são mesmo os donos do produto. O que é bom, e ruim…
Bom porque nos casos de maior sucesso sempre houve um bom envolvimento do cliente, na equipe sempre tinha alguém com mais experiência capaz de compreender essas necessidades e focar a equipe nisso, e algo que considero fundamental: O acompanhamento da direção da empresa, definindo junto com o cliente os rumos do produto. Acompanhamento, não micro gerenciamento.
Ruim porque muitas vezes se acreditou que bastava ter o cliente, sem considerar a necessidade de maturidade na equipe de desenvolvimento e praticamente nenhum acompanhamento da direção da empresa. O que gerou necessidade de retrabalho e realinhamento do produto com a direção da empresa, e não apenas com as necessidades específicas de um único cliente.
Legal Edson, agradeço por compartilhar sua experiência.
só uma curiosidade: qual a formação do seu dono do produto? E qual a função dele na empresa?
Abraços!
Paulo Vasconcellos
Como disse, aqui tentamos uma abordagem mais próxima do XP, quando há um dono do produto, ele é o cliente real, mesmo. Algumas vezes conseguimos que os clientes se envolvam ao menos em parte do processo de validação do que é feito. Quando isso acontece, os resultados são geralmente melhores.
Porém, muitas vezes atuamos sem nenhum “dono do produto”. E é geralmente quando as coisas desandam.
Valeu Edson,
Agradeço a colaboração. E desculpe se ultrapasso minhas fronteiras, mas acho que sua conclusão pode virar uma regra para quem vende seus projetos: a nomeação, pelo cliente, de um Dono do Produto. Se essa condição resulta em melhores projetos, por que não adotá-la de forma geral? Eu sei, existem Clientes e clientes… 🙂
Abraços!
Paulo Vasconcellos
SCRUM DE RAIZ – http://t.co/bMnNrx68 … mais um excelente artigo do @pfvasconcellos