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Jeito

Foto de Charlie Firth na Unsplash

Geralmente evitamos usar palavras cheias de significados. A ambiguidade não faz bem para a maioria das mensagens que precisamos passar. Mas tem hora que um termo versátil e multiuso – rico em sentidos complementares – é tudo o que você precisa para falar muito gastando pouco. Jeito é um desses coringas.

Segundo o Wikcionário, 

JEI.TO s.m.

  1. forma particular de agir
  2. tendência do comportamento de um ser
  3. (Brasil e familiar) bons modos, boas maneiras
  4. inclinação natural
  5. facilidade nata ou adquirida em executar determinada atividade
  6. aparência
  7. (Brasil e informal) maneira de organizar
  8. capacidade de ter seus vícios ou problemas corrigidos
  9. contusão muscular ou em uma articulação
  10. breve movimento de um membro ou da cabeça, geralmente com algum significado explícito

Ao desenhar a evolução deste finito eu fiz de tudo para evitar o uso dos termos metodologia, método, framework e ferramentas. Porque, além dos abusos e maus usos, eles não comunicam tudo o que preciso e consigo dizer com jeito.

Em uma das versões deste material, arrisquei:

Não é tempo nem dinheiro que está faltando. É jeito!

Jeito Sistêmico

Você não precisa ser um hater dos anglicismos pedantes para achar que Jeito de Pensar é muito melhor que mindset. E não é que Jeito Sistêmico1 pode funcionar bem melhor do que o surrado Pensamento Sistêmico? 

Quando o Pensamento Sistêmico significou bons modos, organização e ação

Vou usar esta tríade – organização, ação e bons modos – para falar um pouco mais sobre o Jeito Sistêmico.

Organização: as Lentes Sistêmicas

Aprenda a ver. Perceba que tudo se conecta a todo o resto.

– Leonardo da Vinci

São seis as lentes que usamos e combinamos para apreciar um sistema:

  • Ambiente: todo sistema faz parte de pelo menos um ambiente.
  • Emergência: é tudo o que surge do sistema – intencionalmente ou não – e não pertence a nenhuma de suas partes isoladas.
  • Comportamento: a dinâmica do sistema, seus processos e laços de feedback.
  • Estrutura: os níveis, as partes e suas conexões.
  • História: como o sistema chegou até aqui e quais são os principais marcos da sua trajetória.
  • Perspectivas: quem falou? Quem se interessa? Por quê?

As metodologias e ferramentas tendem a privilegiar uma ou duas lentes. Este cubo não nos deixa esquecer de nenhuma. Além disso, um cubo sugere que não há hierarquia nem face mais importante. 

A ordem proposta na projeção 2D do cubo tem fins didáticos e dá forma para três heurísticas que facilitam a abordagem sistêmica:

A Valsa de Ackoff

Desde cedo aprendemos a aplicar o jeito reducionista de pensar e agir: dado um problema (emergência), quebre-o em pedaços (estrutura) e resolva-os um a um.

O jeito sistêmico nos leva primeiro para cima: posicionamos o sistema em seu ambiente; Mapeamos as pessoas e os sistemas envolvidos; Entendemos os interesses em jogo; E só então damos dois passos para baixo, investigando o comportamento e a estrutura do sistema em foco. 1 ↑ 2 ↓ – a Valsa de Ackoff2.

A Equação de Lewin

C = f(E, A)

O Comportamento é uma função da interação entre Estrutura e Ambiente3. Ambiente e estrutura coevoluem trocando matéria, energia e informação. O comportamento emerge desse acoplamento. 

Sistêmica e pragmaticamente falando, essas faces não fazem muito sentido quando analisadas separadamente.

A Transversal da Complexidade

Quando falamos que um sistema é complexo, sobre o que estamos falando?

  • Sobre incertezas e a imprevisibilidade do seu comportamento?
  • Sobre o tamanho e o emaranhado da sua estrutura?
  • Ou sobre a nossa dificuldade em entendê-lo?

Esta heurística nos ajuda a desenhar cursos de ação mais claros e potencialmente mais eficazes.

Ação: Uma Matriz e outro Cubo

Todo conhecer é fazer. E todo fazer é conhecer.

-Humberto Maturana

A ontologia diz respeito às classificações, ideias e teorias (memetat) que desenvolvemos acerca das coisas do mundo real (habitat). 

A epistemologia sugere como estudamos essas coisas.

Metodologias tratam das formas como esse conhecimento pode ser desenvolvido. A indicação de um ciclo reforça o comprometimento com dois princípios: 1) Respeito aos fatos e evidências (que chegam do habitat); e 2) Humildade para reconhecer o surgimento de melhores ideias (no memetat). Por isso rodamos4.

Diversos modelos, frameworks e metodologias se encaixam nesta matriz de forma natural5 (iniciando do quadrante inferior esquerdo):

  • OODA: Observe, Oriente, Decida, Aja
  • Aprendizagem Experiencial: Experiência Concreta, Observação Reflexiva, Conceitualização Abstrata, Experimentação Ativa.
  • Investigação Apreciativa: Discovery, Dream, Design, Delivery (ou Destiny).
  • DEDE6: Descoberta, Exploração, Desenvolvimento, Entrega.

De fato, todo conhecer é fazer e todo fazer é conhecer. No entanto, como podemos compartilhar esse conhecimento com quem não participou diretamente da experiência?

O Ciclo da Aprendizagem Coletiva

Além das dimensões que fixam o que há para aprender (habitat ⇄ memetat7) e o modo de engajamento (pesquisa ⇄ ação8), precisamos de uma dimensão que trate da difusão do conhecimento (tácito ⇄ explícito).

Três dimensões. Ganhamos um novo cubo e com ele a demarcação de um Ciclo de Aprendizagem Coletiva9 com seis fases:

  1. Pesquisa: ponto de partida no conhecimento tácito e local, detectando sinais no ambiente antes de desenhar qualquer estrutura.
  2. Solução de Problemas: etapa em que o dado bruto ganha forma e estrutura inicial (a codificação do problema).
  3. Abstração: A solução além do caso específico.
  4. Difusão: O compartilhamento do conceito codificado.
  5. Absorção: A internalização do conceito pelas pessoas, transformando-o novamente em prática e hábito (conhecimento tácito).
  6. Ação: A ancoragem dessa nova prática no mundo real, no habitat.

Bons Modos

Você verá neste finito que se uma abordagem é de fato sistêmica ela também é dialógica, inclusiva, multidisciplinar, criativa, estruturante, sustentável, rápida e frugal. Atributos? Features? Restrições!

Erguemos essas condições para tirar o melhor possível de todas as pessoas e sistemas envolvidos. Nessa cumbuca chamada “melhor possível” esperamos encontrar empatia, curiosidade e coragem. 

Acabei de listar 11 adjetivos. Acabei de sugerir que troquemos todos por uma palavra apenas: jeito.



    Notas

    1. E não é que por dez segundos imaginei uma utopia onde jeito sistêmico é um pleonasmo?
    2. Homenagem à Russell Ackoff, pensador sistêmico que nos presenteou com essa didática.
    3. Homenagem a Kurt Lewin, pensador sistêmico que ajudou a estabelecer as Ciências Sociais. A versão original de sua fórmula – B = f(P,E) – diz que o Comportamento (B) é uma função da Pessoa e do Ambiente (E).
    4. E chamamos esse movimento de tentativa e erro?!
    5. Leia-se: sem preferências, vieses ou forçadas de barra.
    6. Adaptação minha, utilizada na melhor versão do FAN e, logo depois, para espinafrar a agilidade que não sabe nada sobre a parte esquerda da matriz.
    7. Por muito tempo usei concreto ⇄ abstrato nas pontas desta dimensão. Até me deparar com o excelente The Roots of STEM e a definição habitat ⇄ memetat, os dois mundos que todo humano habita
    8. Nesta dimensão eu já usei compreensão ⇄ criação e variações. O par pesquisa ⇄ ação, além de ser bastante eficaz na identificação dos extremos, presta homenagem à Kurt Lewin.
    9.  Idealizado por Max Boisot. Explorations in Information Space: Knowledge, Agents, and Organization, de Max H. Boisot, Kyeong Seok Han e Ian C. MacMillan (Oxford University Press, 2008).
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