O lançamento de um curso que não tem fim nem nome certo. É a primeira vez que desenho um curso que precisa funcionar gravado. É um desafio diferente que pretendo documentar neste espaço.
Por ser gravado, não contarei com o luxo do fidbeque instantâneo. Isso me obriga a instalar mais e melhores canais de contato e a fixar um bom intervalo entre as aulas. Imagino que 15 dias sejam suficientes. Para quê? Para amplificar os fidbeques, entendê-los e desenhar aulas melhores.
Sim, o curso está rabiscado mas não foi gravado. Eu não vou desperdiçar a chance de melhorar o curso a cada aula. E não estou com pressa.
A Viagem
O roteiro está dado. É o mesmo da versão Guiada do curso:

Entretanto, como a versão Livre não tem carga horária fixa nem formatura agendada, vamos fazer vários passeios extras. Vamos rodar em estradas vicinais para conhecer mais conceitos, pensadores e ferramentas. Vamos pegar uns trevos que permitam o cruzamento e a combinação de diferentes ideias e práticas. Eu sei, há muito o que explicar. Vamos lá.
Interminável
Entre 85% e 95% dos inscritos não concluem os cursos gratuitos ou baratos. Nos treinamentos corporativos o cenário não é muito melhor: 70% a 80% de desistências. No ensino superior, a evasão dos cursos EAD gira entre 40% e 60%, dependendo da área1.
A vingança do designer: Se a maioria não chega até o final, pra que desenhar um curso que acaba?
O roteiro é iterativo e incremental. A via desenhada tem mão dupla. E eu não sei se haverá distinção entre os níveis básico, intermediário e avançado. Desconfio que isso não seria muito sistêmico.
Fato é que a pessoa vai abandonar o curso quando perceber que as aulas não estão agregando mais nada. Que ela o faça sem dor na consciência, sem a possibilidade do remorso por ter abandonado um diploma que estava “logo ali”. Não tem diploma. Assim como não há nenhum impedimento a eventuais idas e vindas. Porque não tem matrícula também não.
Os inevitáveis abandonos não serão sentidos nem investigados. Fidbeque mesmo, só conversando. Porque quando você quer melhorar um sistema, você não sonega críticas e sugestões; Você não desperdiça a chance da conversa.
Conversas
Eu nunca desenhei um curso “ead” antes porque
- gosto de conversar ao vivo;
- acho que funciono melhor no tête-à-tête; e
- desconfio da eficácia das aulas gravadas.
Não há canal de comunicação mais rico do que o cara a cara. Sua “largura de banda” é incomparável. Porque todos os nossos sentidos estão postos e próximos. Vemos, ouvimos e sentimos a sala em sua completude. São bilhões de bits chegando por segundo. Janelinhas numa sala Zoom nunca vão entregar mais do que uma pequena fração disso, mais do que janelinhas bidimensionais. E o que dizer das aulas gravadas?
Já aprendi muita coisa através de vídeos: preparar yakisoba, plantar costela de adão, trocar as rodinhas da cadeira. Mas este curso não é uma coletânea de tutoriais.
É por isso que, além dos canais tradicionais (área de comentários, avaliações, fórum), preciso oferecer outras possibilidades de contato. Labs e oficinas presenciais não estão descartados.
Mas, afinal, o que pode puxar tanta conversa?
As Aulas
Se fosse um treinamento, cada aula cobriria uma e apenas uma tarefa ou atividade.
- Treinamento: reduz a variedade de pensamentos e comportamentos através de padronização e integração.
- Aula: menor componente de um curso ou treinamento.
- Tarefa: menor unidade de trabalho. É indivisível.
- Atividade: conjunto de tarefas.
Mas o nosso papo aqui é sobre um curso:
- Curso: amplifica a variedade através de novas ideias e perspectivas.
- Aula: unidade fundamental do curso, limitada a um conceito principal.
- Conceito: representação, definição de uma ideia através de palavras. Unidade básica do pensamento.
As aulas não serão necessariamente curtas. Mas terão um foco bem definido. Com conceito, agenda e duração apresentados logo de cara, para evitar surpresas, decepções e perda de tempo. A possibilidade de surpresas existe2, apesar da existência de um programa.
O Programa
O programa é formado por 8 módulos e 26 tópicos:

Boa parte dessa estrutura foi testada em edições do Curso de Pensamento Sistêmico. Generosos colegas me ajudaram a descobrir o que funcionou, o que podia ser melhorado e as abordagens que não funcionaram de jeito nenhum. Foi um belo desafio para todos os envolvidos. Porque o Pensamento Sistêmico não gosta de ser quebrado em partes, aulas, capítulos, módulos3…
O fato é que, na versão Livre do curso, esse programa terá para nós a mesma utilidade que uma partitura tem para uma banda de jazz. Ele dá a linha. Mas não nos amarra de jeito nenhum.
Eu mostrei no post anterior como eu uso a projeção em 2D de um cubo para ilustrar formas diferentes de abordar, estudar e desenhar um sistema.
As mais conhecidas escolas e metodologias do Pensamento Sistêmico privilegiam uma ou duas dessas lentes em detrimento das demais:

- SSM (Soft Systems Methodology): Perspectivas e Ambiente
- VSM (Viable System Model): Estrutura
- Dinâmica de Sistemas: Comportamento e estrutura
- CSH (Critical Systems Heuristics): Estrutura e Ambiente
- ABM (Agent-Based Modeling): Comportamento e Emergência
No entanto, o bom conhecimento sobre um sistema geralmente significa ter respostas sobre cada uma das faces. Por exemplo:
Está tudo parado [emergência] na rodovia que leva ao litoral [ambiente]. Os carros mal fazem 10km/h [comportamento]. A fila já ultrapassa os 15 quilômetros [estrutura]. A descida demorou mais de 8 horas no feriadão anterior [história]. O Sargento Tainha acha que hoje será pior [perspectiva]. Zé Pereira, no Celtinha com a esposa e o casal de filhos birrentos, tem certeza que será bem pior[outra perspectiva].
Partindo do princípio de que só variedade absorve variedade4, desenhei um modelo que pretende absorver todas as escolas e metodologias existentes ou que venham a ser criadas. Este ponto é muito importante se você pretende acompanhar o curso. Mais do que aprender um método ou ferramenta específicos, você vai conhecer conceitos; Vai explorar a gramática dos sistemas e desenvolver um vocabulário. Falando assim, tudo isso pode ser muito chato. Meu trabalho é evitar que isso aconteça. Meu princípio de design #1, inspirado em Stafford Beer5, é ninguém fica entediado. E isso não significa um desfile de piadinhas e histórias fantásticas. Porque o assunto é bom por si só e também porque
Não há nada mais prático do que uma boa teoria.
-Kurt Lewin
Teoria e prática são faces da mesma moeda.
A Prática
O sistema finito oferece quatro oportunidades de prática:
- Curso – Versão Guiada: um sistema escolhido por você serve como base para todas as atividades práticas.
- Laboratório: é a versão guiada sem as aulas expositivas. Pode ser usado como bancada de testes para ideias e ferramentas.
- Oficina: exercício colaborativo de modelagem que trata um sistema/problema.
Nas modalidades acima, a base para a prática é um sistema real da contratante. Negar esse contexto é tirar o chão, é obrigar os participantes a aprender um sistema alheio, às vezes até fictício. Pra que perder tempo assim?
Essas três modalidades têm escopo e prazo fechados. A Versão Livre é… livre. Você vai praticar quando quiser, da forma como quiser. As aulas vão entregar motivos, exemplos, referências e algumas provocações. O resto é com você. Que, obviamente, poderá compartilhar achados e perdidos através dos canais oferecidos.
Autofagia Programada
Se um dia a versão livre do curso terminar, a versão guiada morre. Ou seja, quando todas as aulas expositivas estiverem gravadas, a versão guiada deixa de ser necessária. Mas não é por isso que não estou com pressa.
Requisitos
Este curso tem um grande objetivo: mostrar como usar melhor a cabeça.
Oras, você precisa
- ler para escrever melhor;
- escrever para pensar melhor; e
- rabiscar para fugir da linearidade da escrita e pensar em sistemas.
A boa notícia é que, mesmo que o curso não funcione, você terá trabalhado habilidades que continuarão sendo úteis por tempo indeterminado. Provavelmente as únicas a carregar essa certeza.
Quórum
O Laboratório, para funcionar bem, precisa ter entre 2 e 6 participantes (incluindo IAs). Como o objeto do teste é bem definido, não se justifica um quórum maior. Não usamos o Lab para debater e sim para descobrir.
A Oficina é diferente, é diálogo puro. Que vai funcionar e dar bons resultados na medida em que toda a diversidade envolvida numa situação problemática estiver representada. A ideia é “colocar o sistema na sala”. A oficina pede por um quórum entre 9 e 30 participantes (incluindo IAs).
A versão guiada do Curso pode ter apenas 2 participantes e um deles pode ser uma IA. O quórum máximo é de 12 participantes (incluindo IAs). Você contrata o curso para conhecer e para apresentar para o seu time o jeito sistêmico de pensar e agir.
Incluindo IAs
Quem disse que elas não apareceriam aqui? Apareceram. Como coadjuvantes que são, como possibilidades de automação e extensão, nunca em substituição à criatividade humana. O uso de IAs é opcional e depende da contratante já contar com algumas em sua organização ou querer testar onde e como elas podem ser úteis. A definição e contratação das IAs que integram o time ficam a cargo do cliente.
Financiamento
Não tem um mísero pop-up, propaganda, comissão por livros recomendados, nada. Também não tem bolsa para as pesquisas, patrocínio nem nada do tipo. O finito é assim desde o início, em 2004. O dinheiro que paga tudo aqui vem exclusivamente da venda de cursos, laboratórios e oficinas.
Ao compartilhar este finito com seus colegas, com gente do RH e da educação corporativa, você aumenta consideravelmente as chances do curso de fato não ter fim. Muito obrigado!
Notas
- Números fornecidos pelo Google/Gemini.
- Aliás, o curso vai fracassar se não surpreender.
- Duvide dessa afirmação. Peça para duas ou três IAs diferentes desenharem um curso sobre o Pensamento Sistêmico para você.
- Mais do que um princípio, a afirmação é uma lei. A Lei de Ashby (ou da variedade requerida).
- Beyond Dispute: The Invention of Team Syntegrity (Wiley, 1994).