Esta é a primeira das três partes da palestra que apresentei no último sábado, “O Futuro não é mais como era Antigamente“. Publicarei todas aqui, antes que voltem para o segundo plano de minha gaveta. Hoje escrevo sobre pessoas e equipes. O artigo foi bem contaminado por um tema que ganha espaço até em agenda de candidato, o “apagão” de mão de obra qualificada.
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Mas os anúncios não eram suficientes. E as empresas lançaram mão das estratégias mais agressivas para encontrar “talentos”. Montavam escritórios e quiosques em grandes cidades só para achar pessoas que poderiam ser “convertidas” em programadores. Os recrutadores eram orientados a dedicar especial atenção para: professores de matemática e, olha que jóia, professores de música!
A estratégia funcionou. Em paralelo, universidades e escolas nasceram ou criaram cursos para formar gente que deveria atender toda aquela demanda pós-moderna.

Os Pecados do Lado de Baixo do Equador
O alegre povo de Pindorama, com um certo atraso, sacou: “tem bagulho bom aí!” (e João de Santo Cristo ficou rico a acabou com todos desenvolvedores da Índia). 
Jogamos tantas fichas em apostas bobinhas (CMMI, MPS.br e cartórios afin$) que agora assistimos bondes a nos ultrapassar. EXAME, em 30/jun/2010: “Rivais Além do Futebol – No setor de tecnologia, os empreendedores da Argentina estão melhor que os brasileiros na corrida da globalização.”
Vou poupá-los do chororô sobre uma estratégia para o software tupiniquim. Quem se interessar pelos meus R$ 0,02 sobre o tema pode ler uma pequena série que publiquei em dezembro de 2007 no abandonado Graffiti. O ponto aqui é outro.
É a Educação, Estúpido!
O que Índia, China, Coréia do Sul e outros emergentes da indústria digital têm em comum é a preocupação com educação. O tema sempre aparece na pauta de nossos políticos. Mas aparece assim, como um tópico em um slide que apresenta suas “prioridades”. Até hoje não vi ninguém ir além do óbvio (mais escolas, professores melhor preparados e mais bem pagos etc etc). Como sou um dos menos indicados a tratar o tema com a profundidade e seriedade que ele merece, me limitarei a propor dois ou três novos “slides”, com questões mais específicas:
- No último dia 12/ago a FGV assustou um tanto de gente com um número: “Até 2014, haverá um déficit de 800 mil vagas no setor“. Como não tem muito tempo que esse número era 200 mil, minha desconfiança é alta. Tanto que na palestra perguntei: “Será que estão confundindo a gente com atendentes de telemarketing de novo?” Não importa (muito). O fato é que há sim um “apagão”. E como suprir tamanha demanda de forma rápida? Com cursos técnicos! Em 2 anos é possível formar um batalhão de bons desenvolvedores. Repito o que disse o mineiro Adail Retamal em um seminário há 3 anos: “Programação se aprende em curso técnico, não na faculdade“.
- Não tenho números oficiais, mas há tempos sabemos que cerca de metade da patota que inicia um curso (técnico ou superior) não o conclui. Alguém já se ocupou em descobrir as razões de tanta desilusão? Será que a distância entre nosso instigante cotidiano digital e os ângulos retos e empoeirados de nossas escolas não é uma boa explicação?
- Se eu tivesse grana montaria uma escola com uma grade antenada. Uma base comum, formada por mínimas certezas e teorias fortes, seria obrigatória para todos. Depois, um cardápio multidisciplinar estaria à disposição de designers, engenheiros, líderes, analistas etc. Não me preocuparia em ter o crivo do MEC, PMI, IIBA nem nada do tipo. Uma escola de pensamento independente. Acho que seria uma revolução.
- A formação de mão de obra qualificada é responsabilidade exclusiva de governos? É estranho o pensamento de alguns de nossos capitalistas de TI. Aqueles que têm real consciência da criticidade das pessoas para seu negócio devem se mexer. Quem quer talento hoje deve se preocupar em formá-lo. Duas dicas: i) Faça com que 4 ou 8 horas da jornada semanal seja utilizada exclusivamente em atividades de aprendizado; ii) Incorpore a segunda lei do Dr. Bauer: “O talento vai para onde a ação está“. Ação, pra quem não entendeu, é projeto que dá tesão.
Observações:
- É preciso dizer que naquela época a tarefa de programação era dividida entre diversas funções, do pensador de algoritmos ao perfurador de cartões.
- Sorte nossa que o anúncio, lá no rodapé (p.s.), mata a curiosidade. A “primeira lei” do Dr. Bauer é a seguinte: “se o programa tem um bug, o computador o encontrará”. Grande Dr. Bauer. Mal sabia que sua primeira lei viraria mantra-desculpa de tester preguiçoso…
- A parte pré-histórica aqui narrada foi surrupiada do grande livro “From Airline Reservations to Sonic the Hedgehog – A History of the Software Industry”, de Martin Campbell-Kelly (The MIT Press, 2003).
- O cartoon, “Fitting into the system“, foi surrupiado de HikingArtist.com. Os dois anúncios que ilustram este artigo foram publicados no livro citado acima. E as capas da EXAME e da Wired são propriedade de suas editoras.
- O “Clube da Esquina” é do Milton e de todos os Mineiros; “O Pecado ao Sul do Equador” é do Chico; e o “Bom Bagulho”, do Renato Russo.