Geralmente evitamos usar palavras cheias de significados. A ambiguidade não faz bem para a maioria das mensagens que precisamos passar. Mas tem hora que um termo versátil e multiuso – rico em sentidos complementares – é tudo o que você precisa para falar muito gastando pouco. Jeito é um desses coringas.
Segundo o Wikcionário,
JEI.TO s.m.
- forma particular de agir
- tendência do comportamento de um ser
- (Brasil e familiar) bons modos, boas maneiras
- inclinação natural
- facilidade nata ou adquirida em executar determinada atividade
- aparência
- (Brasil e informal) maneira de organizar
- capacidade de ter seus vícios ou problemas corrigidos
- contusão muscular ou em uma articulação
- breve movimento de um membro ou da cabeça, geralmente com algum significado explícito
Ao desenhar a evolução deste finito eu fiz de tudo para evitar o uso dos termos metodologia, método, framework e ferramentas. Porque, além dos abusos e maus usos, eles não comunicam tudo o que preciso e consigo dizer com jeito.
Em uma das versões deste material, arrisquei:
Não é tempo nem dinheiro que está faltando. É jeito!
Jeito Sistêmico
Você não precisa ser um hater dos anglicismos pedantes para achar que Jeito de Pensar é muito melhor que mindset. E não é que Jeito Sistêmico1 pode funcionar bem melhor do que o surrado Pensamento Sistêmico?
Quando o Pensamento Sistêmico significou bons modos, organização e ação?
Vou usar esta tríade – organização, ação e bons modos – para falar um pouco mais sobre o Jeito Sistêmico.
Organização: as Lentes Sistêmicas
Aprenda a ver. Perceba que tudo se conecta a todo o resto.
– Leonardo da Vinci
São seis as lentes que usamos e combinamos para apreciar um sistema:
- Ambiente: todo sistema faz parte de pelo menos um ambiente.
- Emergência: é tudo o que surge do sistema – intencionalmente ou não – e não pertence a nenhuma de suas partes isoladas.
- Comportamento: a dinâmica do sistema, seus processos e laços de feedback.
- Estrutura: os níveis, as partes e suas conexões.
- História: como o sistema chegou até aqui e quais são os principais marcos da sua trajetória.
- Perspectivas: quem falou? Quem se interessa? Por quê?

As metodologias e ferramentas tendem a privilegiar uma ou duas lentes. Este cubo não nos deixa esquecer de nenhuma. Além disso, um cubo sugere que não há hierarquia nem face mais importante.
A ordem proposta na projeção 2D do cubo tem fins didáticos e dá forma para três heurísticas que facilitam a abordagem sistêmica:
A Valsa de Ackoff
Desde cedo aprendemos a aplicar o jeito reducionista de pensar e agir: dado um problema (emergência), quebre-o em pedaços (estrutura) e resolva-os um a um.
O jeito sistêmico nos leva primeiro para cima: posicionamos o sistema em seu ambiente; Mapeamos as pessoas e os sistemas envolvidos; Entendemos os interesses em jogo; E só então damos dois passos para baixo, investigando o comportamento e a estrutura do sistema em foco. 1 ↑ 2 ↓ – a Valsa de Ackoff2.

A Equação de Lewin
C = f(E, A)
O Comportamento é uma função da interação entre Estrutura e Ambiente3. Ambiente e estrutura coevoluem trocando matéria, energia e informação. O comportamento emerge desse acoplamento.
Sistêmica e pragmaticamente falando, essas faces não fazem muito sentido quando analisadas separadamente.

A Transversal da Complexidade
Quando falamos que um sistema é complexo, sobre o que estamos falando?
- Sobre incertezas e a imprevisibilidade do seu comportamento?
- Sobre o tamanho e o emaranhado da sua estrutura?
- Ou sobre a nossa dificuldade em entendê-lo?
Esta heurística nos ajuda a desenhar cursos de ação mais claros e potencialmente mais eficazes.

Ação: Uma Matriz e outro Cubo
Todo conhecer é fazer. E todo fazer é conhecer.
-Humberto Maturana

A ontologia diz respeito às classificações, ideias e teorias (memetat) que desenvolvemos acerca das coisas do mundo real (habitat).
A epistemologia sugere como estudamos essas coisas.
Metodologias tratam das formas como esse conhecimento pode ser desenvolvido. A indicação de um ciclo reforça o comprometimento com dois princípios: 1) Respeito aos fatos e evidências (que chegam do habitat); e 2) Humildade para reconhecer o surgimento de melhores ideias (no memetat). Por isso rodamos4.
Diversos modelos, frameworks e metodologias se encaixam nesta matriz de forma natural5 (iniciando do quadrante inferior esquerdo):
- OODA: Observe, Oriente, Decida, Aja
- Aprendizagem Experiencial: Experiência Concreta, Observação Reflexiva, Conceitualização Abstrata, Experimentação Ativa.
- Investigação Apreciativa: Discovery, Dream, Design, Delivery (ou Destiny).
- DEDE6: Descoberta, Exploração, Desenvolvimento, Entrega.
De fato, todo conhecer é fazer e todo fazer é conhecer. No entanto, como podemos compartilhar esse conhecimento com quem não participou diretamente da experiência?
O Ciclo da Aprendizagem Coletiva
Além das dimensões que fixam o que há para aprender (habitat ⇄ memetat7) e o modo de engajamento (pesquisa ⇄ ação8), precisamos de uma dimensão que trate da difusão do conhecimento (tácito ⇄ explícito).
Três dimensões. Ganhamos um novo cubo e com ele a demarcação de um Ciclo de Aprendizagem Coletiva9 com seis fases:

- Pesquisa: ponto de partida no conhecimento tácito e local, detectando sinais no ambiente antes de desenhar qualquer estrutura.
- Solução de Problemas: etapa em que o dado bruto ganha forma e estrutura inicial (a codificação do problema).
- Abstração: A solução além do caso específico.
- Difusão: O compartilhamento do conceito codificado.
- Absorção: A internalização do conceito pelas pessoas, transformando-o novamente em prática e hábito (conhecimento tácito).
- Ação: A ancoragem dessa nova prática no mundo real, no habitat.
Bons Modos
Você verá neste finito que se uma abordagem é de fato sistêmica ela também é dialógica, inclusiva, multidisciplinar, criativa, estruturante, sustentável, rápida e frugal. Atributos? Features? Restrições!
Erguemos essas condições para tirar o melhor possível de todas as pessoas e sistemas envolvidos. Nessa cumbuca chamada “melhor possível” esperamos encontrar empatia, curiosidade e coragem.
Acabei de listar 11 adjetivos. Acabei de sugerir que troquemos todos por uma palavra apenas: jeito.
Notas
- E não é que por dez segundos imaginei uma utopia onde jeito sistêmico é um pleonasmo?
- Homenagem à Russell Ackoff, pensador sistêmico que nos presenteou com essa didática.
- Homenagem a Kurt Lewin, pensador sistêmico que ajudou a estabelecer as Ciências Sociais. A versão original de sua fórmula – B = f(P,E) – diz que o Comportamento (B) é uma função da Pessoa e do Ambiente (E).
- E chamamos esse movimento de tentativa e erro?!
- Leia-se: sem preferências, vieses ou forçadas de barra.
- Adaptação minha, utilizada na melhor versão do FAN e, logo depois, para espinafrar a agilidade que não sabe nada sobre a parte esquerda da matriz.
- Por muito tempo usei concreto ⇄ abstrato nas pontas desta dimensão. Até me deparar com o excelente The Roots of STEM e a definição habitat ⇄ memetat, os dois mundos que todo humano habita
- Nesta dimensão eu já usei compreensão ⇄ criação e variações. O par pesquisa ⇄ ação, além de ser bastante eficaz na identificação dos extremos, presta homenagem à Kurt Lewin.
- Idealizado por Max Boisot. Explorations in Information Space: Knowledge, Agents, and Organization, de Max H. Boisot, Kyeong Seok Han e Ian C. MacMillan (Oxford University Press, 2008).